Concerto Campestre

Portugal

10 Outubro Sábado 21:00
Trafaria — Igreja de S. Pedro da Trafaria

Partícula dois: A que insiste

 

Ah, del rústico país
Luz e devoção no Barroco ibérico


Um percurso pela música sacra da Península Ibérica entre os séculos XVII e XVIII, reunindo antífonas, cantadas e música instrumental de Diogo Dias Melgás, José de Torres, David Perez e Antonio de Literes, em diálogo com Antonio Vivaldi e José Pla.


Concerto Campestre


Pedro Castro
oboé barroco, flautas de bisel
Mariana Castello-Branco soprano
César Nogueira violino barroco
Manuel Castro violino barroco
Ana Raquel Pinheiro violoncelo barroco
Flávia Almeida Castro cravo

Pedro Castro direcção artística


Repetição

s. f.
Volta de um gesto, de uma forma ou de uma palavra.
Aquilo que, ao insistir, se transforma.


Programa


Diogo Dias Melgás (1638–1700)
Salve Regina

Antonio Vivaldi (1678–1741)
Concerto em lá menor para flauta e dois violinos
Allegro · Largo · Allegro

José de Torres (1670–1738)
Divino Hijo de Adán — Cantada con violines y oboe
Aria «Divino Hijo de Adán» · Recitado «¿Qué es esto?» · Aria «A eso vengo» · Recitado «A esto baja a la tierra» · Aria «Que viva» · Grave «Oh soberano amor»

David Perez (1711–1778)
Solfejo — extraído de Solfèges d’Italie avec la basse chiffrée (1772)
Duetto XI em dó menor · Affettuoso · Allegro · Fugato

José Pla (1728–1762)
Trio sonata em ré menor para violino, oboé e baixo contínuo
Allegro molto · Andante · Allegro assai

Antonio de Literes (1673–1747)
Ah del rústico país
— Canto a solo de Reyes con violines y oboe
Aria «Ah del rústico país» · Recitado «No ya león rugiente» · Aria «El relámpago, el rayo y el trueno» · Recitado «Jerusalén, eleva tu coronada frente» · Aria «Conoce, Jerusalén, a tu dueño celestial» · Recitado «Mas ay, que ya turbada» · Minuete «Vuele el Deseo» · Grave «Oh Reyes venturosos»


Notas ao Programa


Ah, del rústico país toma o título de uma cantada de Reis de Antonio de Literes (1673–1747), fazendo dessa imagem o ponto de partida para um percurso pela música sacra do Barroco ibérico. Reúne obras concebidas para o culto e para a devoção, destinadas ao espaço da igreja e ao calendário litúrgico.

Diogo Dias Melgás (1638–1700), que recebeu ordens sacras e foi mestre de capela da Sé de Évora durante cerca de trinta anos, está representado pela sua Salve Regina, uma das quatro grandes antífonas marianas da liturgia romana.

«Ah, del rústico país / ah de la vasta mansión / que siendo alcázar del día / ignora la luz del sol.» Numa cantada para a festa da Epifania, estes versos evocam um lugar de grandeza cujos habitantes permanecem alheios à luz. A escolha da palavra alcázar — em vez de palácio — sugere um espaço fortificado e encerrado sobre si próprio, tornando mais expressivo o contraste entre a luz revelada pela Epifania e a incapacidade humana para a reconhecer.

É tentador ler esse «rústico país» como uma alusão a Portugal, onde a música de Literes continuou a ser amplamente conhecida ao longo do século XVIII. Em 1719 compôs um oratório dedicado a São Vicente, estreado em Lisboa e executado várias vezes na Sé entre 1719 e 1722, hoje desaparecido. Também diversas zarzuelas, cantadas em castelhano, foram apresentadas na cidade, entre elas, em 1723, uma representação no palácio do embaixador de Espanha, no local da actual Praça de Espanha. É igualmente em Portugal, no arquivo da Sé de Évora, que se conservam as únicas fontes conhecidas de obras como Júpiter y Semele e Acis y Galatea, fundamentais para o conhecimento da sua produção. Autor de numerosos villancicos, género particularmente cultivado no Advento e no Natal, Literes ocupa um lugar central na música religiosa da Península Ibérica.

O programa reúne-o com outros mestres do culto. José de Torres (1670–1738), mestre da Capela Real de Madrid, foi uma das figuras maiores da música sacra espanhola do seu tempo. A sua cantada Divino Hijo de Adán contempla o mistério da Encarnação através da alternância de recitados e árias, uma das formas mais características da música religiosa barroca.

David Perez (1711–1778), chamado em 1752 por D. José I para mestre de capela da corte portuguesa, dedicou grande parte da sua actividade à música litúrgica. O seu Mattutino de’ Morti permaneceu durante décadas associado à peregrinação de Nossa Senhora do Cabo, no cabo Espichel, na mesma península onde hoje decorre este concerto.

Mesmo as páginas instrumentais pertencem ao mesmo universo estético e espiritual. O concerto de Antonio Vivaldi (1678–
–1741), sacerdote e mestre de violino do Ospedale della Pietà de Veneza, e a Trio sonata de José Pla (1728–1762) testemunham a crescente importância da música instrumental na Europa barroca, sem perder de vista o contexto litúrgico e devocional em que frequentemente eram executadas.


Biografias


Concerto Campestre Com o nome inspirado no famoso quadro de Giorgione, o Concerto Campestre é um grupo de música de câmara, sediado em Lisboa e dirigido por Pedro Castro, dedicado à música europeia do Renascimento ao Classicismo. De constituição versátil, apresenta-se do trio de câmara a produções orquestrais com coro e solistas. Tem participado em festivais e temporadas em Portugal e Espanha, entre os quais Terras sem Sombra, Noites de Queluz, Música em São Roque e Fora do Lugar. Com o Quarteto Arabesco, apresentou a estreia moderna da serenata L’Angelica, de João de Sousa Carvalho, posteriormente gravada para a Naxos.

Pedro Castro Nascido no Porto, em 1977, estudou flauta de bisel e oboés históricos em Lisboa, Utrecht e Haia. É doutorado em Música pela Universidade de Aveiro. Colabora como oboísta e flautista com agrupamentos de interpretação historicamente informada na Europa e é oboísta principal da Orquestra Barroca Casa da Música. Coordena o Concerto Campestre, dirige o Festival de Música Antiga da Serra da Estrela e ensina na ESML/IPL.

Mariana Castello-Branco Nascida em Lisboa, estudou canto no Conservatório Nacional e prosseguiu a formação no Flanders Opera Studio, em Gante. Colabora com Nicolas Achten e Scherzi Musicali. Em ópera, interpretou obras de Purcell, Britten, Mozart, Pergolesi e Ravel. Estreou-se como solista no Requiem de Fauré com o Teatro Nacional de São Carlos e colaborou com a orquestra Divino Sospiro. Entre os trabalhos recentes contam-se a estreia moderna do papel de Fili em A Ninfa e o Tejo, de Alessandro Scarlatti, e a participação no Festival Internacional de Arte Sacro de Madrid com The New Baroque Times.