Sons de Outono

FESTIVAL DE MÚSICA DE ALMADA
3-31 OUTUBRO 2026

 

Partículas

Partículas
s. f. pl.
Unidades mínimas que constituem um todo.
Elementos em suspensão, em movimento ou em relação. Na linguagem, palavras breves que articulam sentido. Na música, formas que se repetem, se transmitem e se transformam.

Partículas como matéria — aquilo que na música persiste entre o papel, o ar e o corpo ao longo do tempo. Entre inscrição e redescoberta, repetição e circulação, prática e memória, o som não se conserva: actualiza-se.

Partimos de cinco formas de permanência da música no tempo — de cinco partículas: a que se encontra, a que insiste, a que se mantém, a que se fixa e a que atravessa.

A que se encontra nos testemunhos escritos do Renascimento, onde gestos, intenções e gosto foram registados segundo práticas de sobrevivência e utilidade. Estes objectos reencontrados guardam repertórios cuja existência permanecia suspensa. A sua singularidade reside tanto no que contêm como no facto de terem sobrevivido — e de guardarem som. Pequenos códices, incompletos, copiados por uma única mão, atravessam o tempo entre perdas e silêncios. O que deles subsiste é a possibilidade.

A que insiste prolonga-se através do rito. Na liturgia barroca, gestos, formas e palavras repetem-se, ligando tempos distintos a uma mesma prática. O que insiste renova-se em cada presença, em cada corpo e em cada escuta. A repetição prolonga a música e transforma-a. Nesse movimento, a música continua a existir.

A que se mantém prolonga-se nas práticas de transmissão. Em contextos de oralidade, a música mantém-se através da escuta, da repetição e da incorporação. A voz, inscrita no corpo e na língua, e o instrumento, como extensão, tornam-se o lugar onde o som continua a agir. A transmissão faz-se também pela escrita, pela recolha e pela prática, que preservam e devolvem aquilo que foi recebido. Cada um reinscreve o repertório como presença partilhada.

A que se fixa manifesta-se nas práticas, nos gestos e nas estruturas que persistem para além da sua origem. No Barroco, a escrita instrumental ganha contorno em modelos reconhecíveis, retomados e transformados entre autores e lugares. Fixar como forma de duração, capaz de continuar a transformar-se. Aquilo que adquire forma pode ser reconhecido, transmitido e novamente habitado. Em cada nova prática, a forma reencontra-se e abre espaço a novas invenções.

A que atravessa circula. Na época medieval, canções associadas a trovadores, peregrinos e práticas devocionais deslocam-se ao longo das rotas europeias e mediterrânicas, cruzando línguas, territórios e tradições. Cantigas e repertórios litúrgicos coexistem num espaço permeável, marcado pelo contacto e pela adaptação contínua. Entre o sagrado e o profano, entre a rua e o templo, estes sons acompanham quem os transporta. Atravessam lugares e modos de dizer.

Entre escrita e oralidade, entre arquivo e prática, entre
repetição e transformação, estas músicas revelam-se como partículas de transmissão — unidades mínimas que se reorganizam, recombinam e permanecem em circulação.


Filipe Faria
Director Artístico

 

Partícula um: A que se encontra

03 Outubro Sábado 21:00
Caparica — Convento dos Capuchos
Sete Lágrimas Portugal
Cuydados meus taõ cuidados
Projecto Elvas, Vol. 2
— Cancioneiro de Elvas (s. XVI)

 
 

Partícula dois: A que insiste

10 Outubro Sábado 21:00
Trafaria — Igreja de S. Pedro da Trafaria
Concerto Campestre Portugal
Ah, del rústico país
Luz e devoção no Barroco ibérico

 
 

Partícula três: A que se mantém

17 Outubro Sábado 21:00
Cacilhas — Igreja de Nossa Sra. do Bom Sucesso
Litá Ucrânia
Da Terra ao Céu
Cantos espirituais e canções tradicionais ucranianas dos séculos XVII ao XX

 
 

Partícula quatro: A que se fixa

24 Outubro Sábado 21:00
Costa da Caparica — Igreja Matriz de Nossa Sra. da Conceição
Ensemble Allettamento Espanha
Da Chiesa
A arquitectura sonora da liturgia barroca

 
 

Partícula cinco: A que atravessa

31 Outubro Sábado 21:00
Almada — Seminário de S. Paulo
Sephardica Espanha
Peregrinatio
A música nas peregrinações medievais

 
 

 

 

Direcção artística
Filipe Faria

Uma produção
O Homem — Colectivo

Produção
Rita Santos
Luís Sequeira

Parceria
Arte das Musas

Media partner
RTP Antena 2


Entidade organizadora
Câmara Municipal de Almada

Presidente da Câmara Municipal de Almada e Pelouro da Cultura
Inês de Medeiros

Diretor Municipal de Desenvolvimento Social
Eduardo Quinta Nova

Diretora de Departamento de Cultura
Rute Moura

Chefe de Divisão dos Museus e Património Cultural
Andrea Cardoso