Sete Lágrimas
Portugal
03 Outubro Sábado 21:00
Caparica — Convento dos Capuchos
Partícula um: A que se encontra
Cuydados meus taõ cuidados
Projecto Elvas, Vol. 2
— Cancioneiro de Elvas (s. XVI)
Segundo volume da hexalogia dedicada ao Cancioneiro de Elvas, manuscrito português do terceiro quartel do século XVI (BME Ms. 11793/P-Em 11793). Dividido em duas partes, o projecto canta as 65 canções profanas conservadas no códice: vilancetes (ou vilancicos), cantigas, tercetos e outras formas poético-
-musicais (volumes 1 a 3) e propõe nova música, de Filipe Faria e Sérgio Peixoto, para os 36 romances, glosas, vilancetes e cantigas que aí se encontram sem música (volumes 4 a 6).
Sete Lágrimas
Filipe Faria voz, percussão
Sérgio Peixoto voz
Pedro Castro flautas, baixão
Tiago Matias viola de mão
Filipe Faria e Sérgio Peixoto direcção artística
Vestígio
s. m.
Aquilo que permanece mesmo quando esquecido.
Fragmento que permite adivinhar uma intenção.
Programa
Tu gitana q̃ adeuinas
Venid a sospirar al verde prado
Quedo triste receloso
Mas deueis aquiẽ os sirue
Perdido polos meus olhos
texto atribuído a Dom Afonso de Menezes (1441–1510?)
Parti ledo por te ver
No piensẽ q̃ a d’acabar
Que sẽtis coraçõ mio
Porq̃ me não ves Ioãna
Llenos de lagrimas tristes
música atribuída a Pedro de Pastrana (c.1480–depois de 1559)
Azme Amor el mal q̃ puedes
Naõ podem meus olhos veruos
Ia naõ podeis ser cõtentes
Que dizen allá Paschual
Mirad q̃ negro amor, y q̃ nonada
Despososse tu amiga
texto atribuído a Salazar el hermitaño
Con mi dolor y tormẽto
Ojuelos graciosos
Aquella voluntad q̃ se á rendido
texto atribuído a Dom Manuel de Portugal (1520?–1606)
A la villa voy
Arranjos de Filipe Faria e Sérgio Peixoto
Notas ao Programa
O Cancioneiro de Elvas (Biblioteca Municipal de Elvas, Ms. 11793/P-Em 11793), manuscrito português do terceiro quartel do século XVI, descoberto cerca de 1928 e publicado em Coimbra, em 1940, divide-se em duas partes: a primeira reúne sessenta e cinco canções polifónicas profanas — vilancetes, cantigas, tercetos e outros géneros —; a segunda, trinta e seis romances, glosas, vilancetes e cantigas sem música.
De pequeno formato — 145 × 96 mm —, o códice perdeu os primeiros trinta e nove fólios e outros quatro. As diferentes vozes encontram-se copiadas separadamente, permitindo aos intérpretes ler simultaneamente as suas partes com o livro aberto. Todo o conteúdo foi escrito por um único copista, de mão profissional.
A primeira parte reúne diferentes camadas de repertório: peças ibéricas de cerca de 1500, sobretudo vilancetes; composições portuguesas, em geral cantigas, provavelmente da primeira metade do século XVI; e obras portuguesas de gosto italianizante do terceiro quartel do século. Identificam-se concordâncias musicais e textuais com importantes cancioneiros da época, entre eles os de Paris, Lisboa, Belém, Palacio, Segovia e Barcelona.
Dos cento e um textos e composições do Cancioneiro — oitenta e dois em castelhano e dezanove em português — nenhum apresenta indicação de autor ou compositor. A investigação permitiu, contudo, atribuir algumas obras a Juan del Encina, Pedro de Escobar e Pedro de Pastrana, e textos a Garcí Sánchez de Badajoz, Comendador Escrivá, Dom Afonso de Menezes, Dom Manuel de Portugal e Pêro de Andrade Caminha. A presença do português e do castelhano reflecte a intensa circulação de ambas as línguas na Península e a frequência de obras anónimas sugere uma cultura de circulação e partilha. O vilancete — estrutura recorrente no manuscrito — organiza-se habitualmente em torno de um mote ou estribilho, seguido de coplas e voltas. Os textos tratam sobretudo do amor e do lamento, mas incluem também referências ao quotidiano e à sátira, num registo em que o lírico e o mundano se cruzam.
Mais do que um repositório de poesia e música, o Cancioneiro de Elvas oferece um retrato das práticas criativas do seu tempo: o anónimo dialoga com o letrado, o culto com o popular, a escrita com a performance.
Depois de vinte e seis anos de visitas constantes ao Cancioneiro, Sete Lágrimas propõe mergulhar neste pequeno códice e fazer ouvir, numa hexalogia, toda a sua música: a que está escrita (volumes 1–3) e aquela que podia estar (volumes 4–6).
Biografia
Fundado em Lisboa, em 1999, por Filipe Faria e Sérgio Peixoto, Sete Lágrimas – Consort de Música Antiga e Contemporânea – assume o nome da inovadora colecção de danças do compositor John Dowland (1563-–1626) – Lachrimæ, or Seaven Teares – publicadas por John Windet em 1604 quando o compositor era alaudista de Cristiano IV da Dinamarca (1577–1648).
Dedicado aos diálogos da Música Antiga com a contemporaneidade — bem como da música erudita com as tradições seculares —, Sete Lágrimas reúne músicos de diferentes horizontes em projectos conceptuais sustentados pela investigação musicológica, criação e experimentação em torno dos sons, instrumentos e memórias da Música Antiga.
Ao longo de mais de duas décadas, realizou centenas de concertos na Europa e na Ásia, apresentando-se em espaços e festivais como Centro Cultural de Belém, Fundação Calouste Gulbenkian, Casa da Música, Philharmonie Luxembourg, Elbphilharmonie Laeiszhalle Hamburg, Bozar, Opéra de Lille, Stockholm Early Music Festival, Stavanger Konzerthus, Festival Baroque de Sablé, Festival de Música Antigua de Úbeda y Baeza, Festival van Vlaanderen ou Macao International Music Festival.
No âmbito da New Early Music Series, estreou obras de Ivan Moody, João Madureira, Andrew Smith, Filipe Faria e Sérgio Peixoto. Em 2011 apresentou, em estreia mundial, Lamento, encomenda ao escritor José Luís Peixoto e ao compositor João Madureira. Em 2011/2012 foi Ensemble Associado da Temporada do Centro Cultural de Belém. Em 2014 representou Portugal, a convite da Antena 2, no EURORADIO Christmas Folk Music Project, difundido por 30 rádios de 28 países. Entre 2018 e 2024, a convite da Philharmonie Luxembourg, desenvolveu a trilogia Les Explorateurs, apresentada em 67 récitas esgotadas.
A sua discografia reúne vinte títulos: Lachrimae #1 (2007), Kleine Musik (2008), Diaspora.pt (2008), Silêncio (2009), Pedra Irregular (2010), Vento (2010), Terra (2011), En tus brazos una noche (2012), Península (2013), Cantiga (2014), Um dia normal (2015), Missa Mínima (2016), Twentie Yeares in Seaven Teares (2020), Loa (2023), Folia Nova (2023), BACH (2024), Projecto Elvas, Vol.1 (2025), fragmenta (2025), Projecto Elvas, Vol.2 (2026) e Requiem (2026). Folia Nova e BACH foram nomeados, em 2023 e 2024, para Melhor Álbum de Música Clássica/Erudita nos Prémios Vodafone PLAY.
Sete Lágrimas conta com o apoio da Direcção-Geral das Artes desde 2003 e do Município de Idanha-a-Nova — UNESCO City of Music — desde 2012.