Sephardica

Espanha

31 Outubro Sábado 21:00
Almada — Seminário de São Paulo

Partícula cinco: A que atravessa

 

Peregrinatio
A música nas peregrinações medievais


Entre a peregrinação e o encontro, entre o sagrado e a circulação dos repertórios, estas músicas revelam um Mediterrâneo atravessado por tradições, memórias e influências em permanente transformação.


Sephardica

Emilio Villalba cítola, harpa, sinfonia, vihuela de arco e alaúde medieval
Sara Marina organetto, trombeta marina, adufe e bendir
Patry Cruz voz
Irene Arévalo voz

Emilio Villalba direcção musical


Passagem

s. f.
Acto de atravessar.
Lugar onde algo se altera ao ser transmitido.


Programa


Laude Novela, Laudario di Cortona (s. XIV)
Voi Ch’amate, Laudario di Cortona (s. XIV)
Totentanz, Anónimo medieval
Cantiga de Amigo, Martín Codax (s. XIII)
Garnati, Anónimo (andalusí)
Veni Veni Emmanuel, Anónimo (s. VIII)
Mariam Matrem, Llibre Vermell de Montserrat (s. XIV)
De Santa María Señal, Cantiga de Santa Maria (s. XIII)
Sen Calar, Cantiga de Santa Maria (s. XIII)
Cantiga del Dragón, Cantiga de Santa Maria (s. XIII)


Notas ao Programa


De Roncesvales a Santiago de Compostela, de Medina a Meca, de Roma a Jerusalém, a devoção pelos lugares sagrados deu origem, durante a Idade Média, a uma rede de itinerários de peregrinação que atravessava a Europa e o Mediterrâneo. Caminhos terrestres e marítimos aproximavam territórios distantes e faziam dos lugares de passagem, das cidades e dos centros religiosos pontos de encontro entre pessoas de várias origens.

Por estes caminhos circulavam peregrinos, mercadores, religiosos, estudiosos, trovadores e viajantes. Com eles viajavam também ideias, conhecimentos, técnicas artísticas e repertórios musicais, estabelecendo um diálogo entre Oriente e Ocidente. A música acompanhou esses movimentos, deslocando-se de norte a sul e de este a oeste, adaptando-se e incorporando novas técnicas, práticas e formas artísticas.

Mais do que vias de circulação, estes percursos constituíram espaços de encontro e transmissão. Uma melodia podia acompanhar aqueles que viajavam, ser escutada noutro lugar, recordada, repetida e novamente transformada. A própria música favorecia essa mobilidade: transportada pela voz, pela memória e pelos instrumentos, podia atravessar fronteiras sem depender de um único território ou contexto.

Nesse movimento encontravam-se também formas de relação com o sagrado. A peregrinação, a oração, a celebração e a devoção faziam da música uma presença nos percursos e nos lugares para onde estes conduziam. Ao lado destes repertórios, viajavam igualmente canções e práticas musicais ligadas a outros espaços do quotidiano, compondo uma paisagem sonora diversa.

A coexistência de diferentes línguas, culturas e tradições reflecte a pluralidade destes territórios e comunidades. Entre transmissão oral e escrita, memória e prática, os repertórios podiam permanecer reconhecíveis e adquirir novas formas. A música medieval revela-se, assim, como um património em movimento, construído pela deslocação das pessoas, pela transmissão e pelo encontro.

Peregrinatio reúne músicas provenientes deste mundo de viagens, devoção e circulação na Europa medieval e no Mediterrâneo. O programa cruza laudas do Laudario di Cortona, uma dança medieval anónima, uma cantiga de amigo de Martín Codax, música andalusina, repertório devocional medieval, Mariam Matrem do Llibre Vermell de Montserrat e cantigas dedicadas a Santa Maria, conservadas nos manuscritos alfonsinos do século XIII. Reunidas neste percurso, estas músicas permitem escutar diferentes geografias, línguas, práticas e formas de devoção que coexistiam nesse espaço de passagem e encontro.


Biografia


Sephardica — formado por Emilio Villalba, Sara Marina, Irene Arévalo e Patry Cruz — dedica-se à interpretação de repertórios históricos, com particular incidência nas tradições musicais do espaço mediterrânico. O seu trabalho articula investigação e prática performativa, com atenção às fontes, à diversidade tímbrica e aos diferentes contextos históricos.

O núcleo do projecto assenta na actividade de Emilio Villalba e Sara Marina, músicos especializados em repertórios compreendidos entre os séculos XI e XVI. Há mais de uma década que desenvolvem uma actividade regular em Espanha, noutros países europeus e no Norte de África. Em 2017, fundaram a Fundación Instrumentos Musicales con Historia, dedicada à investigação e divulgação da música antiga através de instrumentos históricos. A partir de uma vasta colecção — que inclui violas, vihuelas, saltérios, sanfonas, clavisimbalum e organetto, entre muitos outros — desenvolvem concertos, exposições e actividades pedagógicas.

Esta diversidade instrumental ocupa um lugar central no trabalho de Sephardica. Instrumentos históricos e vozes encontram-se em programas que procuram restituir a variedade tímbrica dos repertórios e dos contextos que atravessam, compondo em palco uma espécie de museu sonoro em movimento.

O repertório de Sephardica abrange tradições de al-Andalus e da cultura sefardita, música preservada em códices medievais e repertórios do Renascimento ibérico, com particular atenção às práticas instrumentais e à relação entre música, palavra e narração.

Emilio Villalba dedica-se ao estudo e interpretação de instrumentos históricos, com especial incidência em cordofones como o oud árabe, o saz, a harpa medieval, a sanfona, a viola, o saltério, a cítola e a guiterna. Desenvolve também actividade como ilustrador.

Sara Marina, com formação em piano, especializou-se em instrumentos históricos de tecla, como o clavisimbalum, o clavicórdio, o virginal e o organetto. Interpreta igualmente lira germânica, trombeta marina, sinfonia e percussões tradicionais, participando também na dimensão narrativa dos programas.