Ensemble Allettamento

Espanha

24 Outubro Sábado 21:00
Costa da Caparica — Igreja Matriz de Nossa Sra. da Conceição

Partícula quatro: A que se fixa

 

Da Chiesa
A arquitectura sonora da liturgia barroca


Das primeiras experiências de Dario Castello à maturidade de Vivaldi e Corelli, Da Chiesa percorre diferentes formas da escrita instrumental entre os séculos XVII e XVIII, revelando um repertório marcado pelo contraponto, pela expressividade e pelo desenvolvimento da música instrumental no contexto litúrgico.


Ensemble Allettamento

Mario Braña violino barroco
Elsa Pidre violoncelo barroco
Carlos Oramas teorba


Forma

s. f.
Contorno que torna algo reconhecível.
Estrutura que pode ser retomada, transmitida e transformada.


Programa


Dario Castello (c. 1590–c. 1630)
Sonata seconda, de Sonate concertate in stil moderno, libro secondo

Giovanni Antonio Pandolfi Mealli (c. 1629–c. 1679)
Sonata detta «La Cesta», de Sonate à violino solo, per chiesa e camera, op. 3

Domenico Gabrielli (1651–1690)
Ricercare 7 à violoncelo solo

Heinrich Ignaz Franz Biber (1644–1704)
Sonata «Anunciação», das Sonatas do Mistério

Heinrich Ignaz Franz Biber (1644–1704)
Passacaglia

Antonio Vivaldi (1678–1741)
Sonata a violoncelo solo e basso em sol menor, RV 42
Preludio Largo — Allemande Andante — Sarabanda Largo — Gigue Allegro

Arcangelo Corelli (1653–1713)
Sonata à violino e violone o cembalo, op. 5, n.º 3
Adagio — Allegro — Adagio — Allegro — Allegro


Notas ao Programa


Entre os espaços de afirmação da música instrumental no período barroco, a igreja ocupou um lugar central. Integradas na liturgia, muitas vezes como interlúdios, as sonate da chiesa contribuíram para o desenvolvimento da música instrumental a partir de finais do século XVII. A designação distinguia-as das sonate da camera, destinadas a contextos seculares e frequentemente organizadas a partir de danças; nas sonatas de igreja, a escrita tendia a ser mais contrapontística e os andamentos definidos sobretudo pelas indicações de tempo.

No início do século XVII, porém, a sonata era ainda um território em formação. As Sonate concertate in stil moderno de Dario Castello, publicadas em Veneza em 1629, pertencem a um momento em que a palavra «sonata» ainda não designava uma forma fixa. O stil moderno explora o contraste, a alternância de secções e o diálogo entre as partes, num período em que os instrumentos adquiriam progressivamente maior autonomia e um discurso próprio.

Algumas décadas depois, nas Sonate à violino solo, per chiesa e camera, op. 3, de Giovanni Antonio Pandolfi Mealli, publicadas em 1660, o próprio título revela a permeabilidade entre espaços e práticas. O violino assume já um papel plenamente protagonista, numa escrita em que virtuosismo e expressividade se encontram e os mesmos recursos podiam servir diferentes contextos.

Essa autonomia estende-se também ao violoncelo. Activo em Bolonha e ligado à capela de São Petrónio, Domenico Gabrielli foi um dos primeiros compositores a explorar o instrumento para além da sua função de baixo. No Ricercare 7, uma única linha torna-se espaço de elaboração polifónica, revelando as vozes implícitas num discurso confiado a um só instrumento.

Em Heinrich Ignaz Franz Biber, virtuosismo e dimensão espiritual encontram-se nas Sonatas do Mistério, compostas provavelmente por volta de 1676 e associadas aos mistérios do Rosário. A exploração da scordatura, alterando a afinação habitual do violino, amplia as suas ressonâncias e possibilidades tímbricas. A Passacaglia que encerra o ciclo abandona a scordatura e reduz esse universo à voz solitária do violino e à transformação contínua de um esquema recorrente.

Com Antonio Vivaldi, o violoncelo afirma plenamente a sua identidade solista, numa escrita que conjuga o carácter cantabile com uma relação cada vez mais definida entre a voz instrumental e o baixo contínuo. Em Arcangelo Corelli, cuja op. 5 foi publicada em Roma em 1700, a sonata encontra uma arquitectura de extraordinária clareza e um modelo que teria profunda influência na escrita instrumental europeia.

Da Chiesa reúne diferentes momentos e formas da escrita instrumental barroca — sonata, ricercare e passacaglia — revelando um território em transformação, entre igreja e câmara, contraponto e virtuosismo, permanência e experimentação.


Biografia


O Ensemble Allettamento é um projecto do violinista Mario Braña e da violoncelista Elsa Pidre, nascido de uma longa trajectória musical conjunta e de um interesse comum pela música antiga.

Formados com Amandine Beyer, Benjamin Chénier e Marco Ceccato, na ESMAE, no Porto, e com Enrico Onofri, em Palermo, foram finalistas, em 2016, do V Concurso Internacional de Música Antiga de Gijón, onde receberam o Prémio Especial do Público. Em 2017, obtiveram o Grande Prémio do Júri no VI Concurso Internacional de Música Antiga de Gijón e, em Dezembro de 2020, receberam o Prémio GEMA de Melhor Grupo Jovem 2019, atribuído pela Associação de Grupos de Música Antiga de Espanha. Em 2022, receberam o Prémio GEMA de Melhor Grupo Espanhol de Música Barroca do Século XVIII e Classicismo.

O ensemble desenvolve projectos centrados sobretudo nos séculos XVII e XVIII, a partir de uma perspectiva de interpretação historicamente informada. As suas principais linhas de trabalho e investigação são a recuperação da música original para violino e violoncelo, a prática do baixo contínuo a violoncelo solo e a recuperação de património musical menos conhecido de Espanha e Portugal, os dois países aos quais se encontram directamente ligados.

O Ensemble Allettamento desenvolve também um projecto pedagógico e de divulgação da música antiga, através de palestras, workshops e conferências em diferentes espaços culturais e educativos.

Participou em festivais e ciclos como o Festival Internacional de Arte Sacro de Madrid, a Semana de Música Antiga de Estella, o Festival de Música Antiga de Badajoz, a Semana de Música Sacra de Martos, o Festival Internacional de Música Barroca de Faro, o Festival Fora do Lugar, o Festival de Música Antiga West Coast, em Oeiras, o ciclo À Volta do Barroco, na Casa da Música, no Porto, o ciclo Música para unha época, no Museo de Belas Artes da Corunha, o programa MusaE, dedicado à música nos museus espanhóis, o Ciclo de Música Antiga de Cambados, a Semana Medieval do Castelo de Gauzón, nas Astúrias, a Sociedade Filarmónica de Gijón e o ciclo Le Nuove Musiche, em Santiago de Compostela.