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Casa das Artes

LUGAR DA FALA 4
CABRINHA
CEUTA SUL
LOUREIRO
LISBOA
2026 
OHO0104
LIVRO
BOOK

CASA DAS ARTES — ARTE E CIDADANIA

Reconhecendo na arte e na cultura uma capacidade concreta de transformação individual e comunitária, a Casa das Artes — Arte e Cidadania —, um projecto original de O Homem - Colectivo, desenvolvido em parceria com o Projecto Alkantara IPSS e apoiado pela Câmara Municipal de Lisboa, através do Programa BIP/ZIP, promove o encontro entre a criação artística, o pensamento crítico, a aquisição de competências e o fortalecimento da auto-estima.

Em diálogo próximo com as comunidades e os territórios, o projecto desenvolve programas nas áreas criativa, cultural e social, em que a arte é uma ferramenta e uma prática de relação: um meio para experimentar, criar, tomar a palavra, reconhecer capacidades e construir em conjunto.

A relação entre arte e ecologia humana — entendida como o estudo das relações entre as pessoas e o seu meio físico, social e cultural — abre espaço à fala, à memória, ao diálogo intergeracional, à imagem, à invenção, à palavra, ao som, ao gesto e à cidadania. A imagem, o som e a palavra tornam-se matéria de encontro, expressão e conhecimento.

Em muitos territórios, o isolamento, a precariedade, os baixos níveis de escolaridade, o desemprego, a fragilidade das redes de vizinhança e a escassez de oportunidades culturais levantam barreiras difíceis de ultrapassar. A arte não substitui as respostas sociais necessárias, mas pode criar tempo e espaço. Pode aproximar pessoas, reactivar relações, valorizar saberes e devolver visibilidade a experiências que tantas vezes permanecem à margem.

O contacto continuado com a arte e com a cultura desperta a curiosidade, desenvolve competências, alarga as possibilidades de expressão e estimula o pensamento crítico. Criar é, muitas vezes, um acto de exposição e de escuta. Quando acontece em colectivo, torna-se também um processo de encontro, confiança e partilha, que precisa de tempo e de lugar.

Cada projecto parte do reconhecimento das histórias, dos conhecimentos e das experiências de quem participa. O trabalho cresce no diálogo, respeita o tempo de cada um e procura criar condições para que diferentes vozes, linguagens e formas de participação possam encontrar lugar.

A Casa das Artes é um espaço onde a criação artística e a intervenção social se cruzam. Uma casa aberta à memória, ao pensamento, à experimentação e à liberdade. A nossa Casa tem quartos infinitos: cada projecto abre um novo lugar de encontro e traz consigo outras vozes, outras experiências e outras possibilidades.

É deste encontro que nasce tudo: a convicção de que a arte e a cultura podem ser formas concretas de cidadania, liberdade e comunidade.


A MEMÓRIA E A INVENÇÃO

Uma palavra pode ser o início de uma história. Um nome, uma profissão, um lugar, uma comida, um objecto ou um gesto bastam para abrir um caminho. Quando essas palavras são escolhidas por uma comunidade e entram na mesma narrativa, deixam de pertencer apenas a quem as disse. Passam a circular, a encontrar-se, a contrariar-se e a transformar-se.

As histórias reunidas neste livro começam muitas vezes antes da invenção. Começam nas vidas de quem as conta: nas infâncias, nas famílias, na escola, no trabalho, nas casas, nos bairros, nas deslocações, nas dificuldades, nos afectos e nas pequenas conquistas. Procuram guardar aquilo que cada um escolheu recordar e partilhar. Em cada história pessoal permanece também alguma coisa da experiência colectiva.

Recordar e inventar cruzam-se aqui. Uma lembrança pode chamar outra, transformar-se ao ser contada ou abrir caminho a uma história que nunca aconteceu. Aquilo que imaginamos nasce daquilo que conhecemos, ouvimos, desejamos, receamos e recordamos.

Esta Casa tinha quatro quartos: o quarto das perguntas, dedicado à imagem, ao cinema, à reflexão e à problematização das questões sociais contemporâneas; o quarto do irreal (ou da poesia), onde textos do passado, imagens e ideias permitiram observar criticamente o presente e imaginar outras possibilidades; o quarto da invenção (ou da memória inventada), centrado na fala, na memória, nas histórias de vida e na construção colectiva de histórias — algumas inventadas; e o quarto do barulho (ou do silêncio), onde o corpo e os objectos se tornaram instrumentos de exploração rítmica e musical. Mas a nossa Casa tem quartos infinitos: as práticas, as ideias e as pessoas atravessam-nos, cruzam-se e abrem continuamente outros espaços.

Os quartos nunca estiveram verdadeiramente separados. Uma imagem podia provocar uma pergunta. Uma pergunta podia chamar uma lembrança. Uma lembrança podia transformar-se numa história, num verso, num som ou num gesto. A criação acontecia nesses lugares de passagem, quando uma linguagem encontrava outra e aquilo que parecia conhecido adquiria uma forma inesperada.

Este pequeno livro — o quarto da colecção — reúne memórias e histórias pessoais partilhadas, histórias inventadas, personagens, situações e versos construídos colectivamente. Demora-se no gesto de recordar e no de inventar outras vidas, outros acontecimentos e outras recordações, contados como se fossem naturais e verdadeiros.

Recordar significa escolher, contar, relacionar e dar forma àquilo que ainda permanece. Os acontecimentos podem ter ocorrido há muitas décadas, mas continuam presentes nas palavras, nos gestos, nos cheiros, nos sons e nas imagens de quem os viveu. Ao serem contados, saem da memória individual e passam a integrar uma experiência partilhada.

A memória e a invenção encontram-se continuamente. Mesmo as histórias mais improváveis transportam lugares, trabalhos, comidas, relações, conflitos, modos de falar e pequenos acontecimentos pertencentes ao mundo vivido.

Começaram muitas vezes com palavras escolhidas sem que ninguém soubesse ainda como seriam utilizadas. Um nome de pessoa. Uma profissão. Um animal. Uma comida. Uma cor. Um verbo. Um lugar. Um objecto. Uma emoção. Colocadas lado a lado, estas palavras criaram aproximações improváveis e obrigaram a narrativa a encontrar uma forma de as receber.

Noutros momentos, bastou uma personagem e uma situação inicial. Alguém ia à fonte, apanhava um autocarro, preparava o almoço, seguia para o trabalho, visitava os avós ou ia a uma festa. A partir daí, cada um acrescentava um acontecimento, uma lembrança, uma personagem ou um desvio inesperado. A história avançava de voz em voz, sem que ninguém pudesse decidir sozinho onde terminaria.

Estas narrativas mudam frequentemente de direcção. Uma bilha partida conduz a um sapo e o sapo a um príncipe. Um sapato perdido aproxima duas pessoas que até então não se conheciam. Um jantar entre colegas transforma-se numa história de amor. Uma visita familiar pode acabar num casamento, numa separação ou numa viagem para outro país. O quotidiano permanece reconhecível e qualquer coisa o desloca e o torna inesperado.

As personagens vivem em bairros, vão ao café, trabalham, apanham autocarros e comboios, visitam familiares, assistem a jogos de futebol, vão à praia, ao cinema, às marchas e às festas populares. Comem arroz de pato, sardinhas, camarão, bolas de Berlim, pastéis, arroz-doce e tantos outros alimentos que atravessam as conversas e as memórias. O mundo inventado continua próximo do mundo vivido.

A lógica destas histórias não tem de ser a lógica da realidade. As idades, os lugares, os acontecimentos e o tempo podem cruzar-se de maneira improvável. Uma viagem começa num lugar e termina noutro sem explicar o percurso. Uma personagem aparece sem ter sido anunciada. Um acontecimento inesperado altera tudo. O absurdo faz parte das possibilidades abertas pelo próprio processo de criação.

Também os versos nasceram de palavras escolhidas, temas comuns, rimas encontradas e frases acrescentadas por diferentes vozes. O mar, o calor, os bailes, as romarias, os cafés, os amigos, a comida, os santos populares e os pequenos acontecimentos dos dias aparecem transformados pela cadência e pelo prazer de fazer rimar.

A métrica e a rima seguem o modo como cada verso foi encontrado: uma palavra sugerida por alguém, a resposta dada por outra pessoa, uma hesitação, uma repetição ou uma solução inesperada que fez o grupo rir e permitiu continuar. Próximos da oralidade, da cantiga e do jogo popular, estes versos conservam o ritmo do encontro em que nasceram.

Ao passarem da fala para a escrita, tanto as histórias de vida como as histórias inventadas preservam o seu carácter oral, os modos próprios de contar, os desvios, as mudanças repentinas, as repetições com sentido e as soluções improváveis que fazem parte da sua identidade.

Nenhum dos textos colectivos pertence inteiramente a uma única pessoa. Cada um contém palavras, ideias, memórias e decisões de muitas vozes. Uma pessoa começa. Outra continua. Alguém encontra uma rima. Outra pessoa introduz uma personagem, muda o lugar ou provoca um acontecimento. A criação torna-se uma forma de atenção: escutar o que já existe, receber o que o outro propõe e encontrar uma maneira de lhe dar continuidade. Inventar em conjunto exige confiança. É preciso aceitar que uma ideia possa ser desviada, completada ou transformada. É preciso deixar espaço para aquilo que não estava previsto. O resultado ultrapassa a soma das contribuições individuais e só pôde surgir porque aquelas pessoas estiveram juntas, naquele momento, a construir a mesma história.

O lugar da fala é também o lugar da possibilidade. Um lugar onde quem participa recorda, responde, imagina, decide, transforma e acrescenta. Contar a própria vida é escolher aquilo que permanece. Inventar uma personagem ou um acontecimento é experimentar outras formas de olhar o mundo e de ocupar um espaço dentro dele.

Este livro guarda um pouco do que aconteceu e daquilo que já existia antes deste trabalho. Guarda algumas histórias de vida, palavras antigas, experiências, encontros, memórias e criações. Guarda também o gesto que lhes deu forma: contar, escolher uma palavra, lançá-la para o centro do grupo, escutar o que regressa e continuar a partir daí.

Ficam as vozes e a memória de um lugar onde cada história foi recebida com tempo e atenção. Um lugar onde recordar pudesse ser também criar, e onde inventar pudesse devolver ao vivido outras formas e outras possibilidades.

É deste gesto de escuta que nasce a nossa Casa. Para dar às palavras, às histórias e às experiências aqui reunidas tempo, espaço e forma. Para que não desapareçam. E para que continuem a transformar-se.


Filipe Faria + Rita Santos


Conceito original \Original concept
Filipe Faria

Coordenação \Coordination
Filipe Faria
Rita Santos

Um projecto \A project by
O Homem - Colectivo - Associação para a Ecologia Humana

Financiamento \Financed by
Câmara Municipal de Lisboa - Programa BIP/ZIP

Projecto
026 Casa das Artes [Vale]
BIP/ZIP 3. Qta. Cabrinha / Qta. Loureiro / Av. Ceuta Sul

Parceria
Projecto Alkantara - Associação de Luta Contra a Exclusão Social

Parceria de programação \Programming partner
APORDOC Associação pelo Documentário - Doclisboa

Mediação \Mediation
António Machado
Carla Alves
Filipe Faria
Filipe Santos
Luís Sequeira
Marta Pereira
Micaela Fernandes
Patrícia Costa
Rita Santos

Edição Edition O Homem
Design gráfico Graphic design Filipe Faria
1ª Edição 1st edition Lisboa 2026
Impressão Print Rainho & Neves
ISBN 978-989-35868-3-9

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