Publicações
Casa das Artes
LUGAR DA FALA 3
BELA FLOR
LISBERDADE
SERAFINA
LISBOA
2026
OHO0103
LIVRO
BOOK
CASA DAS ARTES — ARTE E CIDADANIA
Reconhecendo na arte e na cultura uma capacidade concreta de transformação individual e comunitária, a Casa das Artes — Arte e Cidadania —, um projecto original de O Homem - Colectivo, desenvolvido em parceria com o Projecto Alkantara IPSS e apoiado pela Câmara Municipal de Lisboa, através do Programa BIP/ZIP, promove o encontro entre a criação artística, o pensamento crítico, a aquisição de competências e o fortalecimento da auto-estima.
Em diálogo próximo com as comunidades e os territórios, o projecto desenvolve programas nas áreas criativa, cultural e social, em que a arte é uma ferramenta e uma prática de relação: um meio para experimentar, criar, tomar a palavra, reconhecer capacidades e construir em conjunto.
A relação entre arte e ecologia humana — entendida como o estudo das relações entre as pessoas e o seu meio físico, social e cultural — abre espaço à fala, à memória, ao diálogo intergeracional, à imagem, à invenção, à palavra, ao som, ao gesto e à cidadania. A imagem, o som e a palavra tornam-se matéria de encontro, expressão e conhecimento.
Em muitos territórios, o isolamento, a precariedade, os baixos níveis de escolaridade, o desemprego, a fragilidade das redes de vizinhança e a escassez de oportunidades culturais levantam barreiras difíceis de ultrapassar. A arte não substitui as respostas sociais necessárias, mas pode criar tempo e espaço. Pode aproximar pessoas, reactivar relações, valorizar saberes e devolver visibilidade a experiências que tantas vezes permanecem à margem.
O contacto continuado com a arte e com a cultura desperta a curiosidade, desenvolve competências, alarga as possibilidades de expressão e estimula o pensamento crítico. Criar é, muitas vezes, um acto de exposição e de escuta. Quando acontece em colectivo, torna-se também um processo de encontro, confiança e partilha, que precisa de tempo e de lugar.
Cada projecto parte do reconhecimento das histórias, dos conhecimentos e das experiências de quem participa. O trabalho cresce no diálogo, respeita o tempo de cada um e procura criar condições para que diferentes vozes, linguagens e formas de participação possam encontrar lugar.
A Casa das Artes é um espaço onde a criação artística e a intervenção social se cruzam. Uma casa aberta à memória, ao pensamento, à experimentação e à liberdade. A nossa Casa tem quartos infinitos: cada projecto abre um novo lugar de encontro e traz consigo outras vozes, outras experiências e outras possibilidades.
É deste encontro que nasce tudo: a convicção de que a arte e a cultura podem ser formas concretas de cidadania, liberdade e comunidade.
A FALA E A ESCUTA
Uma comunidade é feita de pessoas, lugares e relações, mas também daquilo que, em conjunto, recordamos, contamos e imaginamos. Das palavras que permanecem, dos gestos que se repetem, das histórias que atravessam gerações e das pequenas e grandes coisas que ainda persistem, mas podem desaparecer.
Durante um ano, a Casa das Artes desenvolveu um trabalho continuado de intervenção social pela arte junto das comunidades dos bairros da Bela Flor, Liberdade e Serafina, em Lisboa. Procurou criar condições de encontro, participação, experimentação e escuta. Desse trabalho nasceu um espaço e um tempo onde cada um de nós pudesse partilhar aquilo que traz consigo, experimentar outras formas de expressão e participar na construção de uma matéria comum.
Esta Casa tinha quatro quartos: o quarto da imagem e da cidadania, dedicado ao cinema, à imagem, à reflexão e ao debate; o quarto do irreal (ou da poesia), onde a palavra, a invenção e o absurdo se tornaram matéria de criação; o quarto da memória e do diálogo, centrado nas histórias de vida, nas recordações e na escuta; e o quarto da cor e do gesto (e do barulho), onde a matéria se fazia som e cor e ganhava outras formas de expressão. Mas a nossa Casa tem quartos infinitos: as práticas, as ideias e as pessoas atravessam-nos, cruzam-se e abrem continuamente outros espaços.
A arte foi, neste contexto, menos um objecto final do que uma forma de relação. Um modo de aproximar pessoas, abrir espaços comuns, reconhecer capacidades e permitir que cada um encontre formas próprias de estar e de se expressar. Foi também uma ferramenta para criar tempo e confiança, porque nenhum trabalho desta natureza acontece verdadeiramente quando se faz apenas de suspiros.
Este pequeno livro — o terceiro da colecção — nasce desse percurso e procura guardar a sua memória. Reúne histórias de vida, mas também histórias inventadas, situações improváveis, palavras escolhidas em conjunto e versos construídos por muitas vozes. Guarda um bocadinho do que vivemos (mas não guarda o som). A memória e a invenção não são territórios separados. Encontram-se, misturam-se e transformam-se uma na outra.
As mulheres que contam as suas vidas têm idades, origens e percursos diferentes. Muitas vieram de aldeias e pequenas localidades do interior do país. Algumas chegaram a Lisboa ainda crianças. Outras vieram depois de casar, para acompanhar o marido ou procurar trabalho. Quase todas começaram a trabalhar muito cedo.
Em cada história de vida há também qualquer coisa da história de todos nós.
São histórias contadas com palavras que já quase não se usam. Patalinha. Piola. Bilharda. Arrilejo. Trabalho morto no campo. Têm lá dentro brincadeiras feitas com pedras, argolas de ferro, botões arrancados da roupa, tábuas e rodas de metal. Contam o amolador, o latoeiro, os pratos de barro reparados com grampos, as locomotivas a carvão, os fornos de lenha e as pequenas fogueiras acesas na escola para combater o frio.
Contam os cheiros e os sons que cada um guardou. Os refogados da mãe. A broa. As papas de milho. O feijão guisado vindo das casas. Os bolinhos com canela. Os manjericos de uma vizinha. Os sinos que tocavam de maneira diferente para anunciar uma morte ou um incêndio. As mulheres a cantar nas vindimas. As concertinas dos bailaricos. Os passarinhos, as galinhas, as vacas do vizinho. A música que saía dos rádios das casas.
Estas partículas não são pormenores. Transportam formas de vida, relações de trabalho, modos de brincar, de cuidar, de aprender e de organizar o quotidiano. Algumas destas palavras precisam hoje de ser explicadas. Outras sobrevivem apenas em certas regiões ou na memória de quem as ouviu em criança. Mantê-las é reconhecer o seu valor e evitar que a normalização da linguagem apague aquilo que cada experiência tem de singular.
As histórias reunidas mostram igualmente a passagem do mundo rural para a cidade. Mostram crianças retiradas da escola para ajudarem em casa, no campo ou no cuidado dos irmãos. Mulheres que vieram para Lisboa trabalhar em casas particulares, fábricas, cozinhas, lojas, creches, escolas, hospitais, escritórios e instituições sociais. Mulheres que retomaram os estudos já adultas, que atravessaram diariamente longas distâncias para chegar ao trabalho, que criaram filhos em casas pequenas ou em bairros ainda em formação.
Algumas são histórias de superação. Algumas não deviam ter sido assim. Podiam não ter sido assim. As dificuldades existiram e fazem parte destas vidas, mas não as explicam por inteiro. Há nelas trabalho e perda, mas também humor, desejo, amizade, vizinhança, afecto e pequenas conquistas. Uma máquina de costura finalmente comprada. Uns brincos pagos com o dinheiro da venda de trutas. Uma filha recebida na família. Um exame realizado apesar da resistência de uma professora. Uma profissão imaginada em criança que, por vezes, acabou por se cumprir.
No quarto da memória e do diálogo, recordar não significou apenas regressar ao passado. Significou escolher, contar, relacionar e dar forma àquilo que ainda permanece. Cada vida trouxe palavras, imagens e experiências que passaram a fazer parte de uma memória comum.
Mas, neste livro, a memória não se constrói apenas através do testemunho. Também se inventa. No quarto do irreal, personagens, lugares, profissões e situações abrem caminho a histórias feitas por muitas vozes. Cada acontecimento chama outro, uma lembrança encontra uma palavra e a palavra pode provocar um desvio inesperado. Surgem assim personagens que atravessam serras, mercados, retrosarias, bailes, restaurantes e viagens improváveis. São figuras inventadas, mas a matéria de que se fazem pertence ao mundo vivido: os trabalhos, as comidas, as festas, os afectos, os conflitos e as formas de falar.
O acaso aproxima também palavras que dificilmente se encontrariam no mesmo lugar. Pessoas, animais, profissões, objectos e acções entram em histórias surreais, abrindo espaço ao absurdo e ao riso.
A linguagem deixa de servir apenas para recordar ou explicar. Torna-se também matéria de jogo.
Os versos nascem do mesmo gesto. Palavras, temas e rimas encontram-se. Cada um acrescenta uma ideia, uma lembrança ou uma frase. Próximos da oralidade, da cantiga e do jogo popular, guardam o ritmo do encontro, o prazer da rima e a imaginação partilhada.
Recordar e inventar são, aqui, duas formas de participar. Ao recordar, regressamos ao que vivemos e escolhemos aquilo que ainda permanece. Ao inventar, essa experiência desloca-se, mistura-se e transforma-se. Uma palavra antiga pode dar origem a uma nova história. Um trabalho conhecido pode pertencer a uma personagem imaginária. Uma lembrança pode transformar-se em verso. O vivido não desaparece: muda de lugar e encontra outras formas.
O trabalho da Casa das Artes é encontrar espaço e tempo e criar condições para que todas as vozes sejam escutadas e possam tomar diferentes formas. Uma comunidade não é feita apenas dos edifícios, das ruas ou dos acontecimentos que entram nos arquivos. É feita também daquilo que recordamos, das palavras que usamos, das relações que construímos, das histórias que transmitimos e daquilo que conseguimos imaginar em conjunto.
Este livro guarda o que aconteceu e aquilo que já existia antes deste trabalho. Guarda experiências partilhadas, encontros, memórias e criações. E deixa um desafio: continuar a abrir espaço para a fala, para a escuta e para a invenção.
Ficam as experiências partilhadas, os encontros e a memória de um lugar onde cada voz foi recebida com tempo e atenção. Um lugar onde recordar pudesse ser também criar, e onde a criação pudesse tornar-se uma forma de presença, pertença e cidadania.
É deste gesto de escuta que nasce a nossa Casa. Para dar às palavras, às histórias e às experiências aqui reunidas tempo, espaço e forma. Para que não desapareçam. E para que continuem a transformar-se.
Filipe Faria + Rita Santos
Conceito original \Original concept
Filipe Faria
Coordenação \Coordination
Filipe Faria
Rita Santos
Um projecto \A project by
O Homem - Colectivo - Associação para a Ecologia Humana
Projecto Alkantara - Associação de Luta Contra a Exclusão Social
Financiamento \Financed by
Câmara Municipal de Lisboa - Programa BIP/ZIP
Projecto
027 Casa das Artes [Liberdade]
BIP/ZIP 13. Bela Flor, BIP/ZIP 14. Liberdade
Parceria de programação \Programming partner
APORDOC Associação pelo Documentário - Doclisboa
Mediação \Mediation
António Machado
Carla Alves
Filipe Faria
Filipe Santos
Luís Sequeira
Marta Pereira
Micaela Fernandes
Patrícia Costa
Rita Santos
Edição Edition O Homem
Design gráfico Graphic design Filipe Faria
1ª Edição 1st edition Lisboa 2026
Impressão Print Rainho & Neves
ISBN 978-989-35868-2-2
OHO0102 © 2026 O Homem — Colectivo ℗
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